Os uivos vinham de fora. Ele espiou pela fechadura... só penumbra. A luz começou a ceder. O medo fez com que fizesse coisas estranhas, como sussurrar: “vão embora!”, “vão embora!”. Ora, nem ele conseguia ouvir. E os uivos continuavam. Sua mente já era só instintos. Foi quando finalmente a lua cheia brilhou sem incômodos no céu que ele pôs de uma vez porta abaixo. Enquanto corria, os pelos brotavam em seu corpo e um manto se formou. A cara de lobo foi lapidada e os músculos das patas eram tão fortes quanto o berro que soltara e que ecoava pelo vale:
– Uuuuuuuuuuuuuuhhhhhhhhhhhrrrrrrrrrrrrrrrrr!
Admiração
Hoje acordei, olhei o céu e fiquei feliz de novo. Azul-clarinho donde eu estava. Mas, outros também o admiravam e aquilo parecia legal. Então, não perdi tempo, tanto que não pensava em fazer nada a não ser observar o céu. Você pode achar estranho, mas ninguém arredou o pé. E quanto mais eu me esforçava, esticando meu pescoço ao máximo, mais eu via outros admirando o alvorecer. E assim foi o dia todo. Ah!, Senhor tomara que isso dure bastante. O que será que vêm depois da morte? É que, sabe, eu adoro ver esse céu clarinho, junto com todos. Por enquanto, agradeço a Deus pela vida; por ser uma margarida bela e vistosa.
PASSANDO POR TUDO NAQUELA MANHÃ DE VESTIBULAR
Cada minuto que passava parecia que sua visão estava mais fraca. Procurou por quinze segundos sua carteirinha, mas ela já estava em seu bolso como havia se organizado na noite anterior. O suor por essa ação foi visível, agora já preenche seu rosto. Vestibular no pré-verão é quase que uma maldade a alguns. Só ele sabe o quanto estudou naquele ano. Só ele sabe o quanto se privou do mundo. Só ele, por enquanto, sabe que está prestes a perder o horário da prova e que dará com a cara no portão fechado da PUC.
Oh, noite maldita que ventara, ventara, mas nada de chuva. Mas o fio de luz, esse sim findara seu mandato. Sem luz não há energia. Sem energia não há rádio-relógio (com sistema soneca). Sem rádio-relógio não há cara de sono demorando para acordar e ir devagar prestar a prova. Mas, sem luz há correria, há cara de assustado, de louco, de perturbado, de desesperado. E aquela carteirinha que sumira de repente e que no período de quinze segundos, tão caros quinze segundos, causou uma procura abominável. Café era luxo, conseguia somente enfiar a roupa no corpo, pegar sua pasta e sair de casa.
Faltavam trinta minutos, e o rapaz tinha de chegar ao Prado Velho, bem longe de onde estava. Do pinheirinho ao Prado Velho. Começou a pensar nas fórmulas de física, de matemática, nas etapas textuais da redação, na história do Brasil. Enquanto corria a procurar um táxi, pensava na velocidade média até a PUC, na probabilidade de encontrar um táxi, que o tempo parecia coisa volátil. Com pressa, tudo passa mais rápido. Até as pessoas andando na rua. Mau via os rostos que cruzavam com o seu.
Vinte minutos. Só isso. Vinte minutos. “Meu Deus, e agora, andando, suando, louco, o que faço, o que faço??...”. No momento parou. Pôs a mão no bolso e retirou sua carteira, a qual abriu-a feito um policial e colocou-se em meio à rua. Com o peito erguido, esticava sua carteira. Um policial federal teria inveja. Um carro parou rapidamente. O rapaz pensou: “Nossa ele está brecando mesmo o carro, não acred...”
– Pois não!? – exclamou o homem de dentro do veículo.
– Ér... essa é a minha carteirinha de vestibular. Acontece que eu tenho que chegar até às 8h na PUC. Cara, me quebra essa! (“Nem acredito que falei isso, não consegui inventar história nenhuma”).
O homem por um milésimo de segundo olha o rapaz e diz:
– Você está com sorte, estou indo pra Colombo, dou uma desviada e te deixo ali.
O vestibulando entrou no carro. Talvez o motorista tenha desrespeitado naquela manhã todas as leis de trânsito. A mais providencial: a de velocidade. Mas, para quem não tem luz, não tem lei também. Correndo, agora, para a prova, para a prova de que pode ser mais que um qualquer, para a prova de que improvisar é uma arte. Quando de repente vê a PUC. O homem para o carro e grita:
– Correeeeeee!!!!
O rapaz abre a porta e mal agradece. Observa aquele portão aberto como as portas do céu. Ele atravessa a rua em meio aos carros e as buzinadas, tendo ainda tempo para sentir o suor que agora toma seu corpo inteiro. Consegue entrar. Pára um minuto e olha os portões se fecharem. Vê também outras pessoas chegando, estas sim atrasadas, e implorando para entrar. Alguns gritam, outros apenas choram. Ele tira de seu bolso a carteirinha e dá um beijo nela. Pensa nos quinze segundos de procura por esse documento. Acha-se corajoso.
Naquele ano, pôde ver seu nome na lista dos aprovados. No momento lembrou-se do nome do motorista, Rogério, porém a imagem de seu rosto se apagara de sua memória.
Oh, noite maldita que ventara, ventara, mas nada de chuva. Mas o fio de luz, esse sim findara seu mandato. Sem luz não há energia. Sem energia não há rádio-relógio (com sistema soneca). Sem rádio-relógio não há cara de sono demorando para acordar e ir devagar prestar a prova. Mas, sem luz há correria, há cara de assustado, de louco, de perturbado, de desesperado. E aquela carteirinha que sumira de repente e que no período de quinze segundos, tão caros quinze segundos, causou uma procura abominável. Café era luxo, conseguia somente enfiar a roupa no corpo, pegar sua pasta e sair de casa.
Faltavam trinta minutos, e o rapaz tinha de chegar ao Prado Velho, bem longe de onde estava. Do pinheirinho ao Prado Velho. Começou a pensar nas fórmulas de física, de matemática, nas etapas textuais da redação, na história do Brasil. Enquanto corria a procurar um táxi, pensava na velocidade média até a PUC, na probabilidade de encontrar um táxi, que o tempo parecia coisa volátil. Com pressa, tudo passa mais rápido. Até as pessoas andando na rua. Mau via os rostos que cruzavam com o seu.
Vinte minutos. Só isso. Vinte minutos. “Meu Deus, e agora, andando, suando, louco, o que faço, o que faço??...”. No momento parou. Pôs a mão no bolso e retirou sua carteira, a qual abriu-a feito um policial e colocou-se em meio à rua. Com o peito erguido, esticava sua carteira. Um policial federal teria inveja. Um carro parou rapidamente. O rapaz pensou: “Nossa ele está brecando mesmo o carro, não acred...”
– Pois não!? – exclamou o homem de dentro do veículo.
– Ér... essa é a minha carteirinha de vestibular. Acontece que eu tenho que chegar até às 8h na PUC. Cara, me quebra essa! (“Nem acredito que falei isso, não consegui inventar história nenhuma”).
O homem por um milésimo de segundo olha o rapaz e diz:
– Você está com sorte, estou indo pra Colombo, dou uma desviada e te deixo ali.
O vestibulando entrou no carro. Talvez o motorista tenha desrespeitado naquela manhã todas as leis de trânsito. A mais providencial: a de velocidade. Mas, para quem não tem luz, não tem lei também. Correndo, agora, para a prova, para a prova de que pode ser mais que um qualquer, para a prova de que improvisar é uma arte. Quando de repente vê a PUC. O homem para o carro e grita:
– Correeeeeee!!!!
O rapaz abre a porta e mal agradece. Observa aquele portão aberto como as portas do céu. Ele atravessa a rua em meio aos carros e as buzinadas, tendo ainda tempo para sentir o suor que agora toma seu corpo inteiro. Consegue entrar. Pára um minuto e olha os portões se fecharem. Vê também outras pessoas chegando, estas sim atrasadas, e implorando para entrar. Alguns gritam, outros apenas choram. Ele tira de seu bolso a carteirinha e dá um beijo nela. Pensa nos quinze segundos de procura por esse documento. Acha-se corajoso.
Naquele ano, pôde ver seu nome na lista dos aprovados. No momento lembrou-se do nome do motorista, Rogério, porém a imagem de seu rosto se apagara de sua memória.
Bacana, mas imbecil
David é um cara bacana pra mim. Sinto relatar que é somente um imbecil pra outros. É que o cara prefere, quer saber, viver quieto: tomar seu café – que para ele traz um prazer inquestionável –, assistir à missa no domingo, correr com seu calção branco no sábado. Pleitear cargos mais altos na empresa? Não. Se vier, tudo bem. Se não, talvez até melhor. Se o dinheiro dá para pagar as contas, se guarnecer com uma reserva, comer legal, quer dizer que as coisas estão indo bem. O jardim no cantinho do seu minúsculo terreno de fundos brilha. A lua é observada várias vezes no mês, e a garrafa de Smirnoff Black sempre no fim, coitada, saboreada com sutileza e “requinte” todas as sextas à noite.
Sinto em relatar que o David é considerado um imbecil até mesmo por mim, apesar de achá-lo bacana também. Considero que penso desse modo para velar um sentimento de frequente busca por nada. É! Para abafar um inconformismo comigo e com tudo. Para afogar um sentimento de que o mundo é sempre vazio e sem nexo. Explico. Enquanto o trabalho para mim é ouro, pra ele, a família. Se pra mim é privilégio correr nervoso com projetos – que durarão a vida inteira para completá-los (quem sabe) –, para ele, correr aos sábados com aquele calção branco e MP3 no ouvido. Enquanto para mim é imprescindível na sexta à noite terminar de responder os e-mails que não consegui responder durante a semana, para ele aquela praga de garrafa de vodka, num “requintando” encontro com outros imbecis.
Acho que o David encontrou – observando ele parece tão fácil – a paz de espírito, o segredo da vida, a chave da felicidade. Mas, entenda, não posso deixar de considerá-lo um imbecil, apesar de bacana. É porque só assim conseguirei acordar todos os dias, levantar e seguir a vida.
Sinto em relatar que o David é considerado um imbecil até mesmo por mim, apesar de achá-lo bacana também. Considero que penso desse modo para velar um sentimento de frequente busca por nada. É! Para abafar um inconformismo comigo e com tudo. Para afogar um sentimento de que o mundo é sempre vazio e sem nexo. Explico. Enquanto o trabalho para mim é ouro, pra ele, a família. Se pra mim é privilégio correr nervoso com projetos – que durarão a vida inteira para completá-los (quem sabe) –, para ele, correr aos sábados com aquele calção branco e MP3 no ouvido. Enquanto para mim é imprescindível na sexta à noite terminar de responder os e-mails que não consegui responder durante a semana, para ele aquela praga de garrafa de vodka, num “requintando” encontro com outros imbecis.
Acho que o David encontrou – observando ele parece tão fácil – a paz de espírito, o segredo da vida, a chave da felicidade. Mas, entenda, não posso deixar de considerá-lo um imbecil, apesar de bacana. É porque só assim conseguirei acordar todos os dias, levantar e seguir a vida.
(De) Formado
Perplexo com a idade. Isso poderia acontecer realmente. Tão vaidoso! As horas em que ele passava no banheiro fazendo esfoliação e passando cremes, loções e óleos ou coisas que o valham, somadas, davam o tempo de cem jogos de futebol ininterruptos, de muitas temporadas de seriado americano, de uma porção de novelas brasileiras, de milhares de idas ao bar ou de excessivas noites de amor. Perplexo. O espelho somente refletia sobre aquilo tudo, sobre o que o homem queria afinal, sobre o que é essa aflição humana. E a reflexão do espelho, esta sim, é válida, perfeita. Envelhecer deveria ser uma dádiva; deveria resultar num sentimento maravilhoso, de modo a sentir-se abençoado, afortunado; reconhecido como um ancião contemporâneo, como um mestre, que, silencioso, observa mais e fala menos, mas o que fala vale a pena ser guardado. Contudo, seus pensamentos preferem criticar aquela aparência, consternar-se com a realidade, e acreditar que, daqui para frente, a vida é recheada de dissabores.
Em casa
– E aí, como foi o seu dia?
– Bom...
– E essa cara? Te conheço! Você está chateado com alguma coisa.
– Nada não.
– Desembucha!
– É que a tarde toda fiquei pensando numa coisa que me pegou.
– ah é?
– Fui almoçar naquele restaurante chinês que tem na Comendador, sabe?
– Sei.
– Fiz um prato enorme. Nossa, passei até vergonha. Só tinha mesa mais pra saída; sentei lá. Daí, estava na metade do prato quando parou perto da porta uma senhora, assim moradora de rua, mais um menino. Eles estavam sujos mesmo, sabe?
– Aham.
– Então, eles estavam pedindo para quem passsse na rua que pagasse um almoço para eles.
– E daí?
– Bom, eu continuei comendo minha montanha. Até que o menino, que até aquele momento estava de costas para mim, se virou e me olhou. Um sorrisinho no canto da boca. O cabelinho pro lado. Sua feição era tão singela que veio um nó na minha garganta. Antes que eu percebesse meus olhos estavam cheios de lágrimas. E aquele menino ali, paradinho, querendo se alimentar e eu nem podendo com aquele prato. E ele era tão bonitinho. Quietinho do lado da senhora.
– Nossa, que foda.
– Então, pensei em levantar. Chamar os dois pra dentro do china e pagar dois almoços. Ora, quanto eu perderia, vinte e cinco reais?!
– E daí?
– Nessa hora eu olhei para os lados. Havia mais pessoas observando os dois. Mas, pareciam mais curiosos com o destino terrível deles do preocupados em ajudar.
– E o que você fez?
– Nada.
– Nada?
– Nada. Me recolhi na minha covardia e não fiz nada. À tarde, pensava no corpinho do menino que, possivelmente, não tem os nutrientes que necessita para crescer. Relembrei daquele olhar perdido e de sua feição singela, daquele sorrisinho no canto da boca, querendo, somente, comer. Simplesmente me revoltei com minha ignorância e indiferença e aquele nó na garganta veio várias e várias vezes no dia. – Puxa, desculpe, não era pra você chorar.
– Bom...
– E essa cara? Te conheço! Você está chateado com alguma coisa.
– Nada não.
– Desembucha!
– É que a tarde toda fiquei pensando numa coisa que me pegou.
– ah é?
– Fui almoçar naquele restaurante chinês que tem na Comendador, sabe?
– Sei.
– Fiz um prato enorme. Nossa, passei até vergonha. Só tinha mesa mais pra saída; sentei lá. Daí, estava na metade do prato quando parou perto da porta uma senhora, assim moradora de rua, mais um menino. Eles estavam sujos mesmo, sabe?
– Aham.
– Então, eles estavam pedindo para quem passsse na rua que pagasse um almoço para eles.
– E daí?
– Bom, eu continuei comendo minha montanha. Até que o menino, que até aquele momento estava de costas para mim, se virou e me olhou. Um sorrisinho no canto da boca. O cabelinho pro lado. Sua feição era tão singela que veio um nó na minha garganta. Antes que eu percebesse meus olhos estavam cheios de lágrimas. E aquele menino ali, paradinho, querendo se alimentar e eu nem podendo com aquele prato. E ele era tão bonitinho. Quietinho do lado da senhora.
– Nossa, que foda.
– Então, pensei em levantar. Chamar os dois pra dentro do china e pagar dois almoços. Ora, quanto eu perderia, vinte e cinco reais?!
– E daí?
– Nessa hora eu olhei para os lados. Havia mais pessoas observando os dois. Mas, pareciam mais curiosos com o destino terrível deles do preocupados em ajudar.
– E o que você fez?
– Nada.
– Nada?
– Nada. Me recolhi na minha covardia e não fiz nada. À tarde, pensava no corpinho do menino que, possivelmente, não tem os nutrientes que necessita para crescer. Relembrei daquele olhar perdido e de sua feição singela, daquele sorrisinho no canto da boca, querendo, somente, comer. Simplesmente me revoltei com minha ignorância e indiferença e aquele nó na garganta veio várias e várias vezes no dia. – Puxa, desculpe, não era pra você chorar.
No jardim
– Carinho.
– Fraternidade.
– Papai fazendo churrasco.
– Jogo de futebol.
– Ronaldinho.
– Balança.
– Carne.
– Churrasco.
– Papai.
– Carinho.
– Fraternidade.
– Ah!, vamos brincar de outra coisa.
– Fraternidade.
– Papai fazendo churrasco.
– Jogo de futebol.
– Ronaldinho.
– Balança.
– Carne.
– Churrasco.
– Papai.
– Carinho.
– Fraternidade.
– Ah!, vamos brincar de outra coisa.
Assinar:
Postagens (Atom)