Estava ontem nu bar eu, o Barba e o Gordo, mais o Lima. Olhei comprimido pro Lima. Tava infezado. A gente queria mostra pro Lima que o Corcel II é a milhor opção pra ele, já que ele também pensa em compra uma Brasília sem assoalhu. Sem assoalhu, hum! Onde já se viu! O Gordo – pra quem não conheci, não se assusti, porque o Gordo na verdadi não é mais Gordo, ele desingordo; já foi, não é mais, se bem que tem um otro amigo, que também se chama Gordo, mas aquele é gordo mesmo! – destambelho de falar que não parava. Aquela boca se mexendo assim, vum vum vum. Chego a chama o Lima de Flinkiston e tudo.
O Barba tava meio que piscando longo, dirrubando a cabeça no peito, mas quando a conversa aumentava o volumi ele resmungava alguma coisa: “É, para com isso Lima!”.
É!, o Lima foi embora dizendo que ia pensa, mas bem que eu vi o Corcel II paradinho na loja de esquina lá com a minha casa.
Besta de Flinkiston!
CRENDICE
A crendice mais absurda com a qual topei foi a de que o homem não é homem, no sentido de ser uma coisa naturalmente advinda, de uma maneira ou de outra, das entranhas da terra. Preparei-me melhor na minha cadeira de balanço, velha, coitada, do tempo da Segunda Guerra, que eu herdara de meu avô. Sim, pois foi ali, um tanto mal ajeitado, que li pela primeira vez essa “hipótese”. Era início de 1982, e a luz estava fraca, talvez em meia luz como diz minha vizinha, por causa da ventania daquela hora do almoço que quase arrancara minha casa dali.
“O homem não é homem, somos carregados de DNA alienígena. Há milhares de anos, seres vindos da galáxia de Andrômeda teriam manipulado nosso código genético para que pudéssemos nos desenvolver e nos tornar os seres dominantes da Terra”. Li aquilo com certo receio. Pensei em logo, e de uma vez por todas, jogar fora aquele folhetim chinfrim, ao qual me dedicava todas as manhãs. Mas, é como chicletes no sapato, por mais que você queira, ele está no seu calço.
“Isso de modo difuso e obviamente simplificado já fora dito por povos antigos, mas palavras como código genético e DNA eram substituídas por outras que os valham. Com o passar do tempo, com a evolução dos povos e consequentemente da ciência, essa questão ficou mais clara, dada a especificidade das pesquisas genéticas”. Nesse momento, tirei os óculos, aqueles com lentes tão grossas quanto o fundo das garrafas de vidro, que quase todo o dia ficavam dependurados em meu nariz, e os limpei como se fossem eles os culpados por minha insólita ignorância. “Poupem-me”, dizia às palavras. Mas, ao recolocá-los, o texto, que era de autoria de Andreas Ludson, continuou o mesmo, bem como o meu humor. Joguei o folhetim no chão, que curiosamente caiu com a imagem de uma bebida fortificante para a carne voltada para cima. Deixei a velha cadeira, que passou a mover-se sozinha a tarde inteira, assim eu acho, pois deixei sem querer a janela da sala aberta. Fui barbear-me que ganharia mais, muito mais com aquilo.
De cara lisa, preparava-me para ir trabalhar, sem dispensar os pensamentos sobre DNA, infelizmente. “Mas, que praga!”. Doses exageradas de ar puro entravam em meus pulmões e nutriam minhas células nervosas de oxigênio. À tarde, passei razoavelmente bem, embora tenha ficado por vezes com aquele texto a passar como um letreiro de final filme em minha cabeça. Voltei, confesso, correndo para casa. Enfim, pude retomar nas mãos aqueles papéis com aspectos sujos, curiosamente. “Deveria ter aceitado o gato que o tio Aristides queria me dar! Ao menos teria defecado nas páginas recheadas de besteirol e me livraria desse pequeno vício”.
Voltei a ler e, é bem verdade, não parei mais. A "Semente", de Karl Fries, "Salve Alfa", de Abram Gabriel e "Sem fronteiras - contatos", de Órion Júnior, foram as obras que li e reli e reli, num processo de rito de iniciação. Depois, vieram as revistas, as participações em congressos, a análise de fotos e imagens etc. Isso tudo se tornou um grande vício, e esse grande vício tornou-se minha vida. Anos se passaram e muita coisa mudou. Nos seguintes, histórias fictícias pipocaram aqui e ali, quase sempre no campo cinematográfico. Os filmes de ficção científica martelavam no final da década de 1990 a mesma temática que li em 1982. Seres vindos de qualquer buraco – talvez até do negro – do universo, chegando aqui no paraíso terrestre e entregando a esses pobres animais irracionais, burros e incapazes a luz da sabedoria, do desenvolvimento e da razão. Dos gritos estridentes que rasgavam cordas vocais na Pré-História aos gritos das espaçonaves que ainda com dificuldade desgarram-se do solo terrestre.
Hoje, eu reconheço que a minha crendice advém da ideia mais absurda com a qual topei, por mais absurdo que tudo isso pareça. Range na minha cabeça cada descoberta que faço assim como ainda range na sala de minha residência a velha cadeira de balanço, que persiste contra o desgaste natural.
Não posso, isto sim, contar de meus contatos psíquicos com outros seres e outras dimensões. Devo ter paciência com o leitor, e o leitor numa proporção muito maior, deve ter paciência comigo. Certamente, se falasse qualquer desses casos, quem lesse isso largaria "essas páginas sujas" no chão de casa e se irritaria por demais com isso. O leitor de fato se irritaria com algo que parece ser apenas uma crendice e talvez a mais absurda com a qual topou. O leitor se irritaria com a verdade.
“O homem não é homem, somos carregados de DNA alienígena. Há milhares de anos, seres vindos da galáxia de Andrômeda teriam manipulado nosso código genético para que pudéssemos nos desenvolver e nos tornar os seres dominantes da Terra”. Li aquilo com certo receio. Pensei em logo, e de uma vez por todas, jogar fora aquele folhetim chinfrim, ao qual me dedicava todas as manhãs. Mas, é como chicletes no sapato, por mais que você queira, ele está no seu calço.
“Isso de modo difuso e obviamente simplificado já fora dito por povos antigos, mas palavras como código genético e DNA eram substituídas por outras que os valham. Com o passar do tempo, com a evolução dos povos e consequentemente da ciência, essa questão ficou mais clara, dada a especificidade das pesquisas genéticas”. Nesse momento, tirei os óculos, aqueles com lentes tão grossas quanto o fundo das garrafas de vidro, que quase todo o dia ficavam dependurados em meu nariz, e os limpei como se fossem eles os culpados por minha insólita ignorância. “Poupem-me”, dizia às palavras. Mas, ao recolocá-los, o texto, que era de autoria de Andreas Ludson, continuou o mesmo, bem como o meu humor. Joguei o folhetim no chão, que curiosamente caiu com a imagem de uma bebida fortificante para a carne voltada para cima. Deixei a velha cadeira, que passou a mover-se sozinha a tarde inteira, assim eu acho, pois deixei sem querer a janela da sala aberta. Fui barbear-me que ganharia mais, muito mais com aquilo.
De cara lisa, preparava-me para ir trabalhar, sem dispensar os pensamentos sobre DNA, infelizmente. “Mas, que praga!”. Doses exageradas de ar puro entravam em meus pulmões e nutriam minhas células nervosas de oxigênio. À tarde, passei razoavelmente bem, embora tenha ficado por vezes com aquele texto a passar como um letreiro de final filme em minha cabeça. Voltei, confesso, correndo para casa. Enfim, pude retomar nas mãos aqueles papéis com aspectos sujos, curiosamente. “Deveria ter aceitado o gato que o tio Aristides queria me dar! Ao menos teria defecado nas páginas recheadas de besteirol e me livraria desse pequeno vício”.
Voltei a ler e, é bem verdade, não parei mais. A "Semente", de Karl Fries, "Salve Alfa", de Abram Gabriel e "Sem fronteiras - contatos", de Órion Júnior, foram as obras que li e reli e reli, num processo de rito de iniciação. Depois, vieram as revistas, as participações em congressos, a análise de fotos e imagens etc. Isso tudo se tornou um grande vício, e esse grande vício tornou-se minha vida. Anos se passaram e muita coisa mudou. Nos seguintes, histórias fictícias pipocaram aqui e ali, quase sempre no campo cinematográfico. Os filmes de ficção científica martelavam no final da década de 1990 a mesma temática que li em 1982. Seres vindos de qualquer buraco – talvez até do negro – do universo, chegando aqui no paraíso terrestre e entregando a esses pobres animais irracionais, burros e incapazes a luz da sabedoria, do desenvolvimento e da razão. Dos gritos estridentes que rasgavam cordas vocais na Pré-História aos gritos das espaçonaves que ainda com dificuldade desgarram-se do solo terrestre.
Hoje, eu reconheço que a minha crendice advém da ideia mais absurda com a qual topei, por mais absurdo que tudo isso pareça. Range na minha cabeça cada descoberta que faço assim como ainda range na sala de minha residência a velha cadeira de balanço, que persiste contra o desgaste natural.
Não posso, isto sim, contar de meus contatos psíquicos com outros seres e outras dimensões. Devo ter paciência com o leitor, e o leitor numa proporção muito maior, deve ter paciência comigo. Certamente, se falasse qualquer desses casos, quem lesse isso largaria "essas páginas sujas" no chão de casa e se irritaria por demais com isso. O leitor de fato se irritaria com algo que parece ser apenas uma crendice e talvez a mais absurda com a qual topou. O leitor se irritaria com a verdade.
Exceção à regra
Quem me conhece sabe que essa história é verdadeira. Ela se sucedeu lá pelos idos de 1998, ano em que Lulinha ainda era uma estrela lá no céu e perdia mais uma eleição para o “sociólogo”. E ainda me lembro das ruas cheias de santinhos e que um ar de ressaca tomava conta do ar, e ainda achávamos, antes do resultado, que o vermelhinho havia ganhado, mas as esperanças se esvairiam no dia seguinte.
Mas, este texto não tem nada a ver com política. Pegue a cena dos santinhos nas ruas. Avance umas dez horas para frente. Isso, agora pare! Exatamente às 6h da manhã, estávamos eu e Juliana, cozidos e defumados, defronte a uma taberna chamada “Porão do Rock”, realmente lá pelos idos de 1998.
Batíamos os queixos, e certamente sentiríamos a ponta do nariz e as orelhas gelarem se não estivéssemos anestesiados. E se dizem que Deus ajuda a quem cedo madruga, e se nós ainda não havíamos dormido, então acho que chegamos a uma exceção à regra. E esperava realmente que Deus nos ajudasse quando de repente Juliana resolveu desfazer-se de vez de qualquer traço ainda persistente de sociabilidade e se entregar de vez a uma embriaguez soturna, dispensando vários jatos de vômito disparados sem prévio aviso e sem nenhum remorso a qualquer direção que o nariz apontasse. Depois, ela desmaiou.
A vida de boemia é assim. A sensatez e o dark side são divididos por uma linha tênue, e às vezes sem querer querendo passamos de um lado ao outro. Isso ocorreu quando me peguei olhando sem pudor para o decote dela, até que uma consciência nada vã resolveu recolocar minha índole no lugar de onde não deveria ter saído.
Quando Juliana esboçou um leve tom de humanidade, eu a levantei – estava toda emporcalhada – fiz sinal para um táxi, que era também sinal de loucura, já que nem um tostão havia em meus bolsos e ainda poderia sujar o banco do taxista, o que de fato ocorrera. E, como marmelada na hora da morte mata, sentei no banco da frente e percebia a marmelada chegar às entranhas do estômago e já me sentia moribundo. Mas, como nenhum organismo é igual, aquele doce não me afetaria.
– Para onde? – Indagou o taxista.
– Sabe o que é, estou sem grana, lesado. Minha amiga passou mal e estou num apuro danado. Precisamos ir para o Bairro Alto. Cê quebra essa? – Indaguei com sorriso amarelo. Era loucura de verdade.
O taxista sorriu também.
– Bom, essa era pra ser a minha última corrida. E por sorte de vocês, moro exatamente no Bairro Alto. Acho que hoje é um dia para terminar mais cedo o trabalho.
Ele desligou a taxímetro ao tempo que uma leve garoa cobriu a atmosfera, para que ninguém visse Deus nos ajudando e percebessem a exceção à regra.
Mas, este texto não tem nada a ver com política. Pegue a cena dos santinhos nas ruas. Avance umas dez horas para frente. Isso, agora pare! Exatamente às 6h da manhã, estávamos eu e Juliana, cozidos e defumados, defronte a uma taberna chamada “Porão do Rock”, realmente lá pelos idos de 1998.
Batíamos os queixos, e certamente sentiríamos a ponta do nariz e as orelhas gelarem se não estivéssemos anestesiados. E se dizem que Deus ajuda a quem cedo madruga, e se nós ainda não havíamos dormido, então acho que chegamos a uma exceção à regra. E esperava realmente que Deus nos ajudasse quando de repente Juliana resolveu desfazer-se de vez de qualquer traço ainda persistente de sociabilidade e se entregar de vez a uma embriaguez soturna, dispensando vários jatos de vômito disparados sem prévio aviso e sem nenhum remorso a qualquer direção que o nariz apontasse. Depois, ela desmaiou.
A vida de boemia é assim. A sensatez e o dark side são divididos por uma linha tênue, e às vezes sem querer querendo passamos de um lado ao outro. Isso ocorreu quando me peguei olhando sem pudor para o decote dela, até que uma consciência nada vã resolveu recolocar minha índole no lugar de onde não deveria ter saído.
Quando Juliana esboçou um leve tom de humanidade, eu a levantei – estava toda emporcalhada – fiz sinal para um táxi, que era também sinal de loucura, já que nem um tostão havia em meus bolsos e ainda poderia sujar o banco do taxista, o que de fato ocorrera. E, como marmelada na hora da morte mata, sentei no banco da frente e percebia a marmelada chegar às entranhas do estômago e já me sentia moribundo. Mas, como nenhum organismo é igual, aquele doce não me afetaria.
– Para onde? – Indagou o taxista.
– Sabe o que é, estou sem grana, lesado. Minha amiga passou mal e estou num apuro danado. Precisamos ir para o Bairro Alto. Cê quebra essa? – Indaguei com sorriso amarelo. Era loucura de verdade.
O taxista sorriu também.
– Bom, essa era pra ser a minha última corrida. E por sorte de vocês, moro exatamente no Bairro Alto. Acho que hoje é um dia para terminar mais cedo o trabalho.
Ele desligou a taxímetro ao tempo que uma leve garoa cobriu a atmosfera, para que ninguém visse Deus nos ajudando e percebessem a exceção à regra.
Por que escureceu?
Eram 15h. As nuvens carregadas tomaram o céu e parecia ser a entrada da noite. As galinhas foram para o galinheiro. A luz dos postes das ruas se acendeu. As formigas se recolheram. O hippie guardou as peças de artesanato na bolsa de crochê e se mandou para o bar. As prostitutas não sabiam se iam ao banco ou iam para o trabalho. A coruja abriu um olho, redondo que só, mas não alçou voo, porque ela sim é inteligente. As luzes dos faróis dos carros e algumas sombrinhas começaram a moldar um novo cenário. A chuva fina tomou conta sem querer de cada espaço urbano. E, de longe, muito longe, zilhões de seres superiores se divertem brincando de sims com nossas vidas.
Ritual de iniciação
A fumaça entornava do cachimbo. Dedos negros, grossos, seguravam o cabo encurvado. Olhar confuso. Dúvidas emergiam, talvez. Sentou-se no toco que restou da árvore. De repente, o cachimbo apagou. Olhar de mormaço. Leve sorriso na boca. Era a hora! Os bongôs voltaram a estalar rapidamente. O negro, com o cachimbo agora no beiço, voltou a cantarolar algo que eu não poderia descrever. E todos de uma vez soltaram falas e cantos de seus âmagos. Nisso senti primeiro um incômodo, um desgosto, uma penura. Depois, tudo agradável. Minha boca se abriu e sem querer comecei a recitar versos inexistentes, em língua ainda não descoberta. Minhas pernas se mexiam como nunca e uma dança se desenhou por entre o terreiro, movida quem sabe pelo atabaque, pisando, por vezes, em ervas e incensos.
É MELHOR NÃO NOMEÁ-LO
Ele é uma daquelas figuras que encontramos na literatura cujo nome, por prevenção, providência, precaução, é melhor não mencionar. Fiquei, para o meu desespero, frente a frente com Ele, sendo que nem em meus piores pesadelos isso acontecera. Porém, curiosamente, não tive receio. Procurei agir normalmente porque sabia que ali, entre meros mortais, Ele não avançaria. Aliás, seu feitio é outro. O caráter o abandou há longo tempo, e o ataque pelas costas realmente é seu maior trunfo. Tremi um pouco – é, devo assumir. É que existe uma linha tênue entre a coragem e o medo, e com uma escorregada dessas você pode se afundar no mundo negro do pavor, ou pode, como o Bison em sua rasteira avassaladora, derrubar o seu adversário. Eu não fiz nem um nem outro. Sabia que ali não acarretaria batalha nenhuma. É que Ele prefere, como relatei, atacar quando está tudo escuro, quando os olhos cerram e o corpo não aguarda. E se você estiver em sua lista saiba que hora ou outra você será ameaçado ou atacado. Reze para todos os santos, saia de sua frente antes que ele te arruíne, faça diversas promessas, fure os olhos dele em um vudu, ou pegue-o de surpresa e prosterne-o. Se bem que é difícil. Para você ter uma ideia, quando me retirava de frente dele, Ele me fitou com ar de vitória e implicitamente anunciou que o ataque será em breve. Sinceramente, escorreguei mansamente para o mundo do medo, o mundo negro do pavor.
Transformação
Os uivos vinham de fora. Ele espiou pela fechadura... só penumbra. A luz começou a ceder. O medo fez com que fizesse coisas estranhas, como sussurrar: “vão embora!”, “vão embora!”. Ora, nem ele conseguia ouvir. E os uivos continuavam. Sua mente já era só instintos. Foi quando finalmente a lua cheia brilhou sem incômodos no céu que ele pôs de uma vez porta abaixo. Enquanto corria, os pelos brotavam em seu corpo e um manto se formou. A cara de lobo foi lapidada e os músculos das patas eram tão fortes quanto o berro que soltara e que ecoava pelo vale:
– Uuuuuuuuuuuuuuhhhhhhhhhhhrrrrrrrrrrrrrrrrr!
– Uuuuuuuuuuuuuuhhhhhhhhhhhrrrrrrrrrrrrrrrrr!
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